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A proximidade da festa da Páscoa leva toda a Igreja a se preparar com um grande retiro: a quaresma. É sem perder de vista a grande Vigília Pascal onde o Aleluia será solenemente entoado no meio da assembléia litúrgica, a preparação remota é um convite à conversão, a mudar velhos conceitos, preconceitos e julgamentos. 
Na liturgia pré-conciliar, a quaresma era precedida de três semanas chamadas Setuagésima, Sexagésima e Qüinquagésima. Com os quatro domingos de quaresma, os cristãos tinham sete semanas de preparação para a Páscoa. Um número bíblico cheio de significado e de plenitude. Um número que lembra o tempo do cativeiro na Babilônia, onde os judeus penduraram suas cítaras ao longo dos canais e silenciou-lhes o cântico em seus lábios: “Como poderemos cantar em terra estrangeira?” Mesmo não mais celebrando as semanas anteriores à quaresma – são chamados de “domingos do tempo comum” -, esses quarenta dias que nos separam da Páscoa convidam para uma intensa revisão de vida. Há em nós sempre alguma coisa que precisa melhorar. É claro que jamais nos converteremos em uma única quaresma: porém, de quaresma em quaresma poderemos ir crescendo no caminho da perfeição, em demanda da vida nova. Esse tempo especial de conversão começa com a quarta-feira de Cinzas, com a cerimônia da bênção e imposição das cinzas. Na antiguidade cristã, do século IV ao século X, aqueles que tinham cometido falta grave e pública deviam vestir o hábito de penitente e cobrir a cabeça com cinzas. O próprio bispo os conduzia para fora da igreja e, descalços, realizavam longas peregrinações. Porém, já na Idade Média, houve um abrandamento dessa prática e todos os fiéis aceitavam, de boa vontade, receber as Cinzas para iniciar a quaresma. A liturgia da Quaresma procura uma sobriedade ainda maior do que nos outros tempos do Ano Litúrgico. Se os textos procuram chamar à consciência a nossa fidelidade com Deus, os cânticos devem levar a comunidade a se interiorizar, ainda mais, em sua reflexão sobre as possíveis faltas e limites que impedem de testemunhar com mais generosidade a vida em Cristo. No Brasil, por causa da Campanha da Fraternidade, os hinos já são determinados pelos temas da Campanha. (...) Logicamente, quando a liturgia é bem preparada, há espaço para a inserção de hinos que levam a comunidade a viver este tempo de penitência numa espiritualidade e numa mística edificantes em torno do tema central. E os cânticos, longe de serem um simples adorno, fazem parte integrante da liturgia, pois atingem, com a letra e a beleza da melodia, os corações mais simples e fervorosos. Canta-se a realidade. O tempo de quaresma, necessariamente um tempo de penitência, nos convida a uma revisão interior e, até mesmo, exterior. Privar-se de pequenas coisas, às quais nos apegamos, pode ser um exercício de aprendizado para o desapego de outras maiores. O que se tornou vício, por causa da repetição de um ato mau, deve-se procurar transformar em virtude, pela repetição de gestos bons. Converter-se não basta; é preciso mostrar os frutos dessa conversão. O testemunho de vida cristã há de ser expresso nessas atitudes que a quaresma nos ajuda a consolidar: no jejum, a privação; na oração, a sujeição e na esmola, o desapego. Jejum: não se limite apenas à quarta-feira de cinzas e Sexta-Feira Santa. Esta prática quaresmal deve ser criativa. A privação de alimentos ou guloseimas não deve bastar quando outros jejuns são necessários. Há o jejum da palavra sem caridade, da crítica amarga, da murmuração que destrói. Jejua-se nas atitudes impensadas, que trazem sofrimento ao irmão, jejua-se também quando a caridade fraterna clamar mais alto e a presença ao lado do que sofre qualquer tipo de provação for exigida pela consciência e em função do mandamento do Senhor: amai-vos uns aos outros. Oração: nestes dias de quaresma, a Igreja nos convida à oração ainda mais intensa. Trata-se de mergulhar integra e totalmente na “comunhão dos santos”, sendo um intercessor entre os intercessores. Sabemos que a oração não muda as coisas; a oração muda as pessoas e as pessoas mudam as coisas. Quando Deus quer agir diretamente, ele age. Normalmente, conta com a nossa participação e, quase sempre, somos a resposta de Deus para a oração dos irmãos aflitos. Na busca de viver a oração na quaresma, esse tempo nos torna sensíveis a esses reclamos de piedade. A prática da oração freqüente nos dá essa necessária sensibilidade. Pouco pedimos e quando o fazemos, não sabemos como pedir. Esta evidência bíblica nos leva a uma consideração importante: a oração de petição não deveria ir além do Pai Nosso, onde Jesus sintetizou as maiores necessidades. Mas, como um bom Pai, está ciente da necessidade dos filhos, Ele espera que peçamos, porque a necessidade nos aproxima d´Ele. Isto nos leva à terceira consideração: Esmola: é um termo de origem grega (eleemosynê), com o mesmo sentido em latim (eleemosyna) e significa piedade, compaixão. Não deve ser limitada a uma simples oferta em dinheiro. Não damos do que sobra, mas partilhamos o que nos pode fazer falta. A partilha da pobreza é a maior esmola. Jesus elogiou a viúva, que colocou duas moedinhas no cofre do tesouro do templo. Porém, era tudo o que ela possuía (Mc 12, 42). A esmola é um meio de santificação, quando nos leva ao conhecimento interior, ao desprendimento, à solidariedade, à partilha dos bens materiais e à promoção humana. Essa dimensão quaresmal da esmola é uma catequese que faz descortinar horizontes imensos de conquistas espirituais. Santos reis e rainhas descobriram, nessa prática, um modo de crescer na santidade. A vida despojada de tantos religiosos e religiosas é um testemunho brilhante do quanto a esmola significa em suas vidas. E quando esmolam pelos outros, o sentido de uma vida amplia-se ainda mais. Vivamos, portanto esta quaresma na atenção especial a estes valores: jejum, oração e esmola. Deixemos que o “aleluia”, na Vigília da Páscoa expresse, com o seu vigor e sua alegria, aquilo que silenciamos, de que nos privamos e a que renunciamos por tão longos dias. Tudo isto será norteado pela Fraternidade, que assumimos como empenho, ideal evangélico e direção de vida e caminho cristão. Jesus será, também nisso, o nosso grande mestre.
Fonte: D. Eusébio Oscar Scheid Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
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