A Campanha da Fraternidade está em sua 52ª edição. Os cristãos adultos, em sua maioria, sempre viveram, durante o tempo da Quaresma, este programa forte de evangelização e transformação provocado pela Campanha. Uma vez que a CF não tem como objetivo atingir apenas os cristãos, mas a toda a sociedade, podemos dizer que o nosso país, de alto a baixo, traz, em sua evolução, a marca de uma Igreja que provoca, a cada ano, uma reflexão corajosa sobre um tema social, um assunto polêmico, uma ameaça à vida, um ponto que carece de conversão. Podemos dizer que o rosto social do Brasil não seria o mesmo se não houvesse uma Igreja assim comprometida. É um fato que suscita admiração das Igrejas de outros países, e que já serviu de modelo para muitas Conferências Episcopais.

Não se pode negar, no entanto, que a Campanha da Fraternidade, nos últimos anos, tem se enfraquecido. Não porque os problemas sociais se tornaram menos graves. Houve, sim, arrefecimento de muitos grupos dedicados à pastoral social. Houve certa fadiga de lideranças que não encontraram quem as substituísse, houve o crescimento de um cristianismo de perfil emotivo e individual, em detrimento do espírito solidário e comprometido.

Salve-nos o Papa Francisco que, em oportuna hora, nos veio convidar a uma retomada da Evangelização com alegria, porém fortemente comprometida com a vida, com a justiça, com o espírito de serviço e com a paixão missionária. Seus gestos e seu pedido de uma “Igreja pobre, a serviço dos pobres” chocam e encantam o mundo a cada dia. Retrata-o o cartaz da CF, de mão no chão, beijando um pé desnudo, retrato do próprio Cristo servidor.

Uma CF diferente das outras

A Campanha deste ano não retrata um problema social, não escolhe um segmento da sociedade, não tem objetivo de refletir sobre um assunto polêmico. É, antes, um olhar dos cristãos sobre a própria Igreja e um convite à sociedade para que conheça a Igreja e sua missão. Muito oportuno este olhar, pois estamos no ano cinquentenário do encerramento do Concílio Vaticano II, que colocou a Igreja de frente para o mundo, estabeleceu um diálogo franco com a sociedade, preparou a Igreja para enfrentar um dos períodos mais turbulentos de sua história, e avisou a todos que a Igreja queria ir além das sacristias e dos templos, queria sair em missão, sair em serviço, sair corajosamente enfrentando o cansaço, as feridas e, se preciso, o martírio para se envolver com a defesa da vida. É a Igreja “em saída” do Papa Francisco, que realiza o desejo expresso pelo Concílio, 50 anos atrás, só agora em condições de pegar estrada.

E a Campanha da Fraternidade nos coloca nessa estrada. O texto-base nos convida a olhar para o passado: como foi a presença da Igreja na sociedade, nos cinco séculos, desde os anos 1500, passando pelo Brasil Colônia, Império, República; o período da repressão militar, e a redemocratização. Considera as crises econômicas, a pobreza, a violência, o laicismo do Estado, a corrupção, os desafios e as esperanças de hoje. Uma viagem rápida pela linha do tempo, além de um olhar para a Igreja, à luz da Palavra de Deus e do Magistério recente, especialmente a Igreja do Concílio até Aparecida, nos fará entender o que quer o Papa Francisco na sua Exortação Evangelii Gaudium: uma Igreja solidária, missionária, aberta ao diálogo com o mundo, sem medo de mostrar os valores do Evangelho como caminho para a sua própria conversão e para a salvação do mundo.

Igreja e Sociedade: “Vim para servir”

O tema “Igreja e Sociedade”, embora diferente das campanhas passadas, não destoa, nem enfraquece a Campanha da Fraternidade. Não focaliza um problema social, mas vai ao encontro de todos eles, ao ter como lema a palavra de Cristo “Vim para Servir” (Mc 10,45). Que serviço é esse que todas as Igrejas têm a obrigação de realizar? Não será apenas o serviço litúrgico, as bênçãos e as novenas. Não será apenas o convívio dos almoços e jantares em festas de padroeiro ou associações e grupos que cuidam de si mesmos. Esse sonoro lema “Vim para servir” deverá colocar nossa consciência na balança, para ver, no calendário da paróquia, onde se gasta o maior esforço: na manutenção de si própria, ou na ação missionária. Vamos examinar as atas do Conselho Paroquial: os assuntos mais frequentes são de manutenção da estrutura interna ou são de busca e de serviço aos que não participam. Vamos verificar se os movimentos e associações gastam o seu tempo, e seus recursos, com os necessitados e na ação social, ou investem só em si mesmos. Conferir se, entre as inúmeras tarefas do padre, o tempo maior é reservado para o serviço misericordioso de sair em busca dos caídos, dos que necessitam da Palavra, do encorajamento, do sentido da vida.

A identidade da Igreja de Jesus Cristo

O tema “Igreja e Sociedade” deverá clarear para todos nós, clero e leigos, a identidade própria da Igreja como presença de Cristo Servidor em meio aos homens. Essa identidade não está suficientemente clara para a sociedade, que coloca a nossa Igreja no mesmo pacote dos grupos fanáticos, ou no rentável grupo das empresas de negócios religiosos, e cujo interesse se limita aos escândalos e aos casos exóticos. Mas também não está clara a identidade da Igreja para muitos, dentro da própria Igreja, fechados em interesses pequenos de favores divinos individuais, ou de pequenos grupos que se fazem independentes e se bastam em cultivar a sua espiritualidade própria e suas atividades internas, sem ligar para uma pastoral de conjunto, nem para uma ação missionária comum, e muito menos para o cuidado daqueles cujos direitos e dignidade são negados. Uma Campanha com esse tema não pode ficar restrita ao tempo da Quaresma, mas pode ser iniciada ali sob o signo da conversão, estendendo-se por todo o ano na reflexão e aprofundamento do tema, nas diversas ocasiões de formação permanente, como preocupação dos Conselhos Regionais e Paroquiais, dos encontros de grupos e associações, movimentos e pastorais. Quanto a isso, tomo a liberdade de sugerir alguns pontos práticos que nos possibilitem colher bons frutos dessa Campanha da Fraternidade, além de outras propostas que estão no texto-base.

As Paróquias tenham um grupo escolhido – como Equipe de Animação da Campanha da Fraternidade, encarregado de estudar o tema, acompanhar as iniciativas em relação à Campanha, avaliar e aproveitar os dados colhidos para fazer crescer a CF a cada ano. Esse grupo se encarregará de estender por todo o ano o estudo e reflexão do tema proposto pela CF. O encontro promovido pela diocese, sobre o tema da CF, em 31 de janeiro, pode ser reproduzido em encontros de formação, especialmente dirigidos aos Ministros, aos Catequistas, às Equipes de Liturgia, aos conselhos das comunidades e demais lideranças, motivando ações e iniciativas nas comunidades. O presente texto, publicado no BIO, poderá servir de motivação para a reflexão e formação das lideranças.

Que o texto base da CF/2015 seja conhecido e estudado– Junto com esse texto, a Palavra de Deus e os Documentos do Concílio podem ser úteis. Ampliar os temas, trazê-los para o contexto das paróquias e comunidades, envolver as lideranças no estudo do tema “Igreja e Sociedade”, durante todo o ano, tudo isso fará um grande bem para os fiéis que participam de nossas paróquias.

A CF deve ser levada para fora da Igreja – As diversas paróquias do mesmo município podem se unir e solicitar à Câmara de Vereadores uma sessão pública extraordinária sobre o tema da Campanha. Pode preparar alguns leigos (ministros, catequistas, professores, advogados…) que tenham habilidade de proferir palestras nas escolas, nas universidades, nas entidades de classe, sobre o tema. Pode procurar espaço nos meios de comunicação locais para publicar materias e divulgar o que a comunidade realiza em benefício da sociedade.

É oportuno planejar e fazer valer a presença dos leigos católicos – nos conselhos municipais, no apoio às políticas públicas que tragam real benefício ao povo, nos movimentos sociais e de cidadania. É bom saber que a Igreja está ainda empenhada na coleta de assinaturas em favor da Reforma Política Democrática conforme divulgado pela CNBB.

Fazer um retrospecto - de como os temas das CFs anteriores foram acolhidos nas comunidades. O que resultou depois de cada campanha? Cresceu ou diminuiu o zelo pelos pobres, pelos marginalizados? Quais os temas que deixaram uma marca positiva de consciência e de ação evangelizadora na comunidade?

Fazer um levantamento claro e honesto – das ações de natureza social realizadas pela Igreja local. Quais permanecem vivas, quais estão perecendo? Quais merecem ser mais motivadas? Há renovação das lideranças? A ação é aberta para a participação da comunidade, ou fechada num grupo ou movimento? Quem são aqueles de quem lavamos os pés, e quem são aqueles dos quais ainda não nos aproximamos, e podemos eleger como rostos de Cristo sofredor?

Os pequenos grupos de rua, grupos de reflexão e vivência – tenham em mãos o livreto sugerido pela diocese, com o CD da Leitura Orante e o texto para a Via Sacra, em número suficiente para tornar o tema da Campanha bem próximo da realidade e da vida dos cristãos. Esses grupos cresceram na Novena de Natal, muito bem acolhida, e podem crescer ainda mais na Quaresma, e depois, no Tempo Comum, com o livreto correspondente.

A Coleta da Solidariedade- seja bem motivada no dia 29 de março de 2015, gesto concreto da Campanha, que deve ser direcionado a projetos sociais das Paróquias e da Diocese, sob os cuidados da Caritas diocesana. A Caritas precisa ser abraçada por toda a diocese para se tornar o que ela é: o rosto social da Igreja diocesana.

Os religiosos e religiosas – que vivem especialmente este ano de 2015 como Ano da Vida Consagrada deverão também avaliar se o seu testemunho e seu profetismo estão sendo compreendidos pela sociedade. Suas atividades e presença na sociedade são a “comissão de frente” de uma Igreja comprometida, ousada e missionária?

A Campanha da Fraternidade – em si mesma pode ser repensada, neste ano, à luz do tema “Igreja e Sociedade”. Muitos começaram a questionar se vale a pena continuar com a Campanha. Para alguns, esse programa afasta os cristãos dos temas próprios da Quaresma. Para outros, esse formato já não corresponde às necessidades dos dias atuais. Em muitas igrejas, a Campanha se resumiu à exposição do cartaz e, quando muito, no ensaio do Hino da Campanha. Não estaria na hora de repensar, em nível diocesano, de que forma abraçar com mais vigor os objetivos da CF a cada ano?

Meus caros, o tema e a oportunidade da Campanha da Fraternidade, deste ano de 2015 são de excepcional atualidade. Não se trata de “mais um documento” para ser estudado e, depois, esquecido. Aliás, este período fértil que a Igreja vem vivendo, com grandes reflexões como a de Aparecida, a Evangelii Gaudium, o Documento 100, As novas Diretrizes Gerais, o documento dos Leigos, tudo isso à luz dos textos do Concílio, não retrata uma situação de confusão e tiroteio para todas as direções. Esses inúmeros efeitos motivadores são complementares. Todos eles apontam para a única direção que devemos seguir, como Igreja, nos dias de hoje. Todos apontam para Jesus Cristo servo e humilde, profético e misericordioso, que a nossa Igreja deve sempre mais encarnar. Desejo a todos uma grande e corajosa conversão quaresmal. Sobre todos invoco as bênçãos de Deus.

Dom João Bosco, ofm