A força da videira - Texto de Lídia Walder

Nossa maior confiança no amor de Cristo é devido a sua grande prova de entrega por nós na Cruz.

Apesar disso, um dia me bateu um medo bobo, de pensar em até quando Jesus iria me amar.

De fato Ele morreu por mim a dois mil anos atrás, e hoje, sou a maior pecadora que pode existir.

Será que se fosse hoje, se Jesus tendo visto esses pecados que tenho cometido, e re-cometido, será que Ele ainda morreria por mim? Será que já não está cansado de me perdoar, de me amar sem que eu faça nada de bom? Será que há tanto tempo na caminhada, já não me encontro como o cão que volta ao seu próprio vomito, ou a porca que depois de lavada volta a revolver-se na lama (Cf. 2 Pd 2, 22)?

Jesus, na sua imensa misericórdia me mostrou que não! Em oração, e angustiada, eu perguntava a Ele sobre isso, e veio no meu coração a resposta: “Eu só vou deixar de te amar quando Eu descer da Cruz.” Confortou-me a frase, mas imaginei o que isto queria dizer; afinal, Jesus morreu e FOI retirado da Cruz por José de Arimatéia! Mas meu Deus não me deixou na dúvida e no mesmo instante me fez lembrar do parágrafo 1085 do Catecismo, que diz:

“.. o único evento da história que não passa: Jesus morre, é sepultado, ressuscita dentre os mortos e está sentado à direita do Pai “uma vez por todas”. [...] outros eventos da história aconteceram uma vez e depois passam, engolidos pelo passado.”Todos os anos, na primeira semana de julho, alguém poda a parreira de casa. Um ritual que se repete há mais de quatro décadas. Primeiro era o meu avô, depois meus pais e há quatro anos cabe a mim a tarefa.

Na primeira vez que podei, estava tão atarefada e preocupada com a doença de meu pai, que fiz tudo mecanicamente. Um trabalho a mais. Um árduo trabalho visto ter que utilizar uma escada, estar o sol escaldante e minhas mãos doendo muito devido à artrite.

No ano seguinte, olhando aquele tronco ressequido, áspero, com ar de sem vida, mas forte e rijo, lembrei do que vem depois da poda: brotos tenros, verdes, aveludados, que rapidamente crescem e se estendem por todo varal preparado para recebê-los e que, por ocasião do Natal se enchem de suculentos cachos de uma deliciosa uva preta.

Nesse momento, no alto daquela escada, vivenciei verdadeiramente, pela primeira vez, o significado da parábola da videira. Ali estava eu, diante do tronco, sempre o mesmo, generoso, a sustentar os ramos e irrigar os frutos com sua seiva. Seiva que a cada corte, transborda do talho e pinga abundantemente. Ali estava eu, com aquela tesoura de poda, a cortar os galhos secos que durante o último ano cumpriram sua missão e para nada mais servem.

Daquele dia em diante, a visão da parreira me emociona e torna-se nova a cada instante. Cada broto que surge daquele tronco áspero e forte, é uma nova vida despontando e penso: só mesmo Jesus, Deus filho de Deus, feito homem, e homem com a vivência humana da realidade rural, conseguiria a metáfora perfeita para transmitir aos simples e humildes que o seguiam e a todos nós “duros de coração”, o mistério da Igreja que ele fundava.

“Eu sou a videira, vós sois os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto: porque sem mim nada podeis fazer.Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam.Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e vos será feito.” (João 15: 5-7).

Suzana Bleckman
Pastoral da Juventude