O mês da Bí­blia e o meu Avô Evangélico... - Texto de Lídia Walder

O mês de setembro se encerrou neste domingo – mês da Bíblia .

Para encerrar este mês, segue uma pequena reflexão:

Como cristã de nascimento e católica por opção meu contato com o livro sagrado há muito se faz presente em minha vida. Quando o assunto é Bíblia, imediatamente me vem à memória a figura de meu avô. Claro, calvo, com o pouco cabelo que lhe restou, grisalho, formando um semicírculo na base da cabeça. Aspecto austero como convém a um descendente de suíços. Terno azul marinho, camisa branca, gravata escura, sapatos pretos, tipo botas de cano curto, sempre engraxados por mim – o traje de ir ao culto. Ereto, cabeça erguida, Bíblia na mão direita, braço esticado rente ao corpo, lá ia ele, enquanto pode caminhar, à igreja Luterana que ficava na Rua Eleutério, aqui no Brooklin. Ele era metodista, mas pela dificuldade de locomoção freqüentava a igreja evangélica mais próxima.

Eu gostava muito dele, era a mais velha dos netos, e sei que ele tinha certa predileção por mim. Sempre o ajudava em seu trabalho na construção de nossa casa. Ele era pedreiro (construiu como encarregado de obras a Catedral Metodista de Piracicaba, que lá está até hoje e a igreja Metodista de Santo Amaro, na Avenida Adolfo Pinheiro – demolida para dar lugar a um banco). Eu ficava ali, a seu lado, peneirando areia, lavando azulejos, carregando tijolos ou recolhendo o excesso de reboco, durante horas, sem trocarmos uma palavra. “Durante o trabalho, não se conversa” – dizia ele. A presença daquele homem forte, justo, me bastava e fazia bem.

Quando estava em casa, depois da jornada de trabalho, sempre tinha a Bíblia à sua frente. Lia, fazia anotações à lápis nas margens. Nunca falamos de religião e bem pouco falamos de outros assuntos. Quando ele morreu, fui a última a vê-lo antes do desenlace. Já estava casada e tinha uma filha com 2 anos e meio, a primeira de seus 13 bisnetos e única que ele conheceu.

Passados algumas semanas de seu passamento, minha avó me chamou e entregou uma Bíblia. Uma das 10 que ele comprara pouco antes de perder a noção da realidade em decorrência da enfermidade. Comprara essas Bíblias, pois acreditava que deveria dar sua última contribuição em obediência ao preceito: “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho...”. Recomendou que uma deveria ser minha, como lembrança sua.

Assim, em especial neste tempo em que se fala mais da Bíblia e em todas as vezes que olho à minha cabeceira, aquele exemplar das Escrituras Sagradas, editado em 1968, amarelado pelo tempo, com algumas páginas rasgadas pelo manuseio, lembro do meu avô, e vejo que a maior herança que ele nos deixou foi seu exemplo de vida, vivida à luz do Evangelho, sempre buscando seguir os passos d´Aquele que disse de Si mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida...”.

Lídia Walder
Equipe SCJ